Curativos

Março 3, 2008

Hoje quero falar de como se tratavam as doenças na minha infância. Se me doia a barriga, a minha mãe deitava-me no chão em cima de uma manta e esticava-me os pés até ficarem bem unidinhos e com as duas mãos esfregava-me a barriga com azeite da candeia (nesse tempo as pessoas alumiavam-se com candeias de azeite), depois fazia uma faixa com um lenço da cabeça e apertava-me a barriga. Tinha de andar com aquilo 3 dias. Não gostava nada.

Se me doia a cabeça diziam logo que era quebranto. Alguém me tinha embruxado. Então, a minha tia mandava-me sentar à lareira com as pernas cruzadas, dava-me uma mão cheia de sal para eu segurar e andar com ela à volta da cabeça enquanto dizia:

“Quebranto, para que me vieste e não me disseste que eu te curaria? Com três peidos meus, três da Maria Mateus, três do Bio-bio e três da puta que o pariu.”

Em seguida punha o sal em cima das brasas. Se ficasse negro o quebranto tinha passado. Acho que ficava sempre negro.

Quando as pessoas andavam fracas, mesmo os meninos, davam-lhes sopas de cavalo cansado. Eram feitas com vinho quente e açucar amarelo. Numa malga grande faziam as sopas de pão ou broa e por cima punham o açucar bastante e depois cobriam com vinho quente.

Muitos meninos comiam sopas de cavalo cansado antes de irem para a escola. Eu não me recordo se também comi disso antes de ir para a escola, mas sei que comi algumas vezes.


Saúde

Janeiro 17, 2008

Cada dia ouvimos dizer que se fechou mais um Hospital ou Centro de Saúde. As pessoas ficam aflitas e muitas vezes com razão. Mas na minha infância, nas aldeias não havia médico, nem acesso a eles. Havia um senhor, a quem chamavam “Barbeiro” (mas não era de fazer a barba) que vinha às casas mediante o pagamento de uma avença. Ou seja, as pessoas, doentes ou não, comprometiam-se a pagar um alqueire de milho por ano e quando precisavam chamavam-no. Ele receitava papas de linhaça se doia a barriga, sanapismos de mostarda se doia a garganta ou as costas, chás de malvas, hortelã, cidreira, cabeça de marcela, borragem, etc.

Eram tempos muito diferentes, mas ninguém morria à fome. Se uma pessoa ficasse doente de cama logo lhe punham à cabeceira um pacote de açúcar e um pão de trigo.

Hoje, quando uma pessoa tem febre mandam tirar a roupa. Nada de abafar! Mas nesse tempo abafavam a pessoa com roupa, pois tinha de transpirar para passar a febre.

Quando olho para trás dou graças a Deus. Como tudo evoluiu!…

Hoje as crianças são vacinadas contra tudo e mais alguma coisa. Eu fui vacinada contra a varíola, porque estava na escola, mas as minhas irmãs, que não foram à escola, todas tiveram bexigas. Dava pena vê-las inchadas com bolhas de pus. Ficaram com buraquinhos no rosto.

A minha mãe teve 10 filhos e os primeiros três morreram. A menina à nascença e os dois meninos, com 5 e 7 anos, ninguém soube porquê.

O meu pai morreu aos 36 anos com uma hérnia estrangulada. Se fosse hoje não teria morrido tão novo.


Lembrei-me agora de uma anedota do tempo do volfrâmio

Dezembro 23, 2007

O volfrâmio é um mineral que se explorou muito no tempo da 2ª Guerra Mundial. Havia muito nas regiões interiores de Portugal e essa exploração fez muitos novos-ricos. Alguns nem sabiam contar o dinheiro, nem o que fazer com ele. Então um foi comprar um bilhete para ir a Lisboa de comboio, mas em vez de embarcar ficou-se na Estação.

- Então Manel, não embarcaste?

- Não, enganei o comboio. Comprei o bilhete, mas não fui.


Vou falar do meu pai

Dezembro 13, 2007

Pouco me lembro do meu pai. Morreu com 36 anos quando eu tinha apenas 5 anos.

Lembro-me da história das favas, mas não tenho uma foto dele, porque na aldeia não havia fotógrafos.

Recordo-me de o ver na cama pouco tempo antes de morrer, de o ver descer a escada do alçapão, mesmo doente para pôr os bois no carro. Não foi ao médico, veio uma curandeira para lhe dar um clister, o que ainda lhe fez pior. A morte dele foi causada por ter uma hérnia umbilical. Usava uma funda para segurar o intestino, mas um dia foi lavrar uma terra com os bois novos,  não levou a funda e o intestino saiu. O atraso de toda aquela gente não os deixou chamar um médico ou conduzi-lo ao hospital e assim morreu passados 5 dias.

Era um homem que prometia ser rico, era negociante de peles e lã. Andava pelo Ribatejo e Alentejo. Quando regressava trazia dinheiro que aplicava comprando todas as terras que estivessem à venda. Quando casou fez a maior casa da aldeia, com rés-do-chão e 1º andar, cómodos para animais, adega, etc.

Deixou viúva a minha mãe, que era da idade dele, uma mulher bonita, com cinco filhas, a mais velha com 10 anos, a mais nova com 2.

A minha mãe ficou cheia de dívidas, porque o meu pai não contava morrer e tinha acabado de comprar uma grande quinta que ainda não tinha pago.

A minha mãe era analfabeta, mas felizmente em contas ninguém a enganava.


A minha infância (cont.)

Dezembro 10, 2007

A minha mãe não tinha possibilidades. Na aldeia ninguém estudava, não havia transportes nem estudos gratuitos. Só pagando.

O estudo era para os ricos, os filhos dos doutores, que muitas vezes eram umas nulidades, mas chegavam a doutores, porque os pais também o eram. Os pobres e os camponeses tinham de continuar no campo.

Quando eu dizia que queria queria estudar as pessoas riam-se de mim.

Por isso, hoje quando vejo esta juventude vinda das aldeias, com as mesmas regalias, os mesmo direitos dos jovens da cidade, sinto-me muito feliz e dou graças a Deus. Só é pena que muitos não aproveitem esse privilégio. Sim, porque isto é um privilégio, é uma conquista da democracia, da evolução dos tempos.

Não podendo entrar em nenhuma escola, nem colégio, uma senhora amiga da minha mãe arranjou forma de eu aprender costura com umas senhoras que passaram a ser a minha segunda família.

Aprendi costura e isso foi muito bom. Ainda hoje faço as minhas roupas quando me apetece. Mas não era a costura que eu queria; eu queria estudar, ser professora.

Estávamos no regime de Salazar. As mulheres não precisavam de saber ler, e as que sabiam não faziam mais do que a 3ª classe, tal como os homens. Assim passou a haver um exame na 3ª classe. Fecharam-se as Escolas Normais onde se formavam as professoras, mas para dar uma satisfação ao País e suprir a falta de professores criaram-se as regentes escolares. Não precisavam de lhes pagar o curso, ganhavam menos do que as professoras e faziam as vezes destas.

Estava eu na 4ª classe e um dia minha professora disse-me assim: “Olha, se não puderes estudar, quando tiveres 18 anos fazes um exame e vais para professora regente”.

Eu fiquei sempre a pensar nisso. E entre a saída da escola e os 18 anos passou-se muito tempo em que eu fiz de tudo, apanhei azeitona, sachei milho e nunca me esquivei a qualquer trabalho. Tudo o que fazia, fazia-o com garra, com alegria, com vontade e nunca ficava atrás. Mas as pessoas para quem eu trabalhava todas me diziam: “Tu tens jeito é para senhora. Porque não vais para professora?”. E foi assim que um dia pedi dez tostões à minha tia para comprar sabão, afim de me poder encontrar com a professora da terra e lhe pedir para me habilitar para regente.

Ela aceitou com toda a simpatia e carinho. Passei a ir à escola dela e numa pequena sala ao lado ensinava a classe que ela me dava. Ou seja, vinham os meninos da 1ª classe, depois da 2ª e assim todas as classes acabaram por me passar pelas mãos. Em vez de me ensinar, era uma espécie de estágio supervisionado por ela.

Ela era uma grande senhora e uma grande amiga. Eu fazia-lhe os bibes para os filhos e ela muitas vezes dava-me o almoço. Saiu lá da terra nesse ano, mas disse-me: “Não lhe posso garantir nada, mas vá fazer o exame, está preparada.”

E assim foi. Fiz o exame e fiquei aprovada com 12 valores, sem favor, o que não era vulgar nesse tempo.

Isto foi em Outubro de 1941.


A minha infância

Dezembro 8, 2007

Fiquei sem pai aos cinco anos. Fui para a escola levada por um vizinho. Na escola tive sempre sucesso graças ao meu sentido de responsabilidade.  Conquistei a simpatia da professora que sempre me apoio e conseguiu que a minha mãe me deixasse fazer a 4ª classe, coisa que as meninas do meu tempo não faziam. Mas para ir à escola tinha de cumprir muitas obrigações, não só apanhar favas e ervilhas, mas também ir à água, ajudar no campo. Mesmo assim era a primeira a chegar à escola, tirava os significados para os outros e abria a porta da escola.

Para assistir às provas orais da 4ª classe andei 10 Km a pé. Completei o meu exame com distinção. Julgava-me a pessoa mais importante, sabia história, geografia, matemática, etc.

Tinha muita vontade de continuar, mas como?


Chocolates

Dezembro 8, 2007

Hoje vou contar-vos como eram os “chocolates” da minha infância na minha aldeia.

Tinha cerca de 4 anos, aí por 1926, o meu pai regressou a casa depois de ir ver um faval. Sentou-me num joelho e uma outra irmã mais nova noutro e puxou do bolso do casaco uma mão cheia de favas tenrinhas e deu-nos para que comêssemos assim cruas depois de descascadas. Nós achávamos muito boas.

Outras vezes eram ervilhas, que eu gostava mais.

Quando mais tarde já andava na escola tinha como obrigação apanhar favas e ervilhas para a ceia. Entrava no ervilhal e era uma para o saco e outra para o papo; era a merenda. As ervilhas e as favas tenrinhas eram muito boas.

Eu não gostava de favas cozidas, mas gostava cruas. Eram os meus chocolates!


Hoje vou falar de enjeitados

Dezembro 5, 2007

Sempre houve crianças abandonadas pelo País. Eram os chamados enjeitados.

No tempo do Marquês de Pombal, reinado de D. Maria I (século XVIII), Pina Manique criou a Casa Pia, destinada a essas crianças. Assim, quem não queria ou não podia criar os filhos levava-os para a “Roda”.

A “Roda” era um departamento dessa casa, onde as mães iam depositar os filhos, com ou sem identificação.

Então o Estado publicou uma lei que permitia que qualquer mãe que tivesse filhos a amamentar pudesse ir buscar uma dessas crianças para aleitar e criar, recebendo para isso uma pensão.

Ora, na minha aldeia conheci muitas dessas pessoas, homens e mulheres que tendo vindo da “Roda”, casaram, formaram família e eram pessoas de bem. As pessoas que os iam buscar criavam-nos e introduziam-nos na família com os mesmos direitos dos seus filhos biológicos.

A minha mãe contou-me que a minha avó, apesar de ter mais cinco filhos, foi buscar uma menina a Lisboa (sim, porque era lá que as iam buscar) que criou com todo o carinho, mas quando ela já tinha 7 anos os pais biológicos vieram buscá-la.

Os meus avós ficaram muito tristes.

Mais tarde souberam que a menina tinha morrido de saudades.

Lembrei-me disto por causa do caso da “Esmeralda”…


Os funerais

Novembro 30, 2007

Os funerais são por norma lugares de recolhimento, mas os funerais da aldeia têm um sentido diferente. As pessoas acorrem a assistir à despedida daquele ou daquela,  pai ou familiar dos seus amigos.

Alguns vêm de longe por esse motivo, não podem faltar, é um dever.

Então dá-se praticamente um momento de reencontros. Relembrar factos passados, ver pessoas que não se via há anos e que noutro lugar não era possível encontrar, há abraços, beijos de carinho, e o que devia ser um motivo de tristeza é muitas vezes de alegria.

Fui a um funeral à minha terra, foi assim para mim, vi pessoas que não via há anos. Não chorei, não só porque sabia que a pessoa a enterrar tinha sofrido muito em vida, e acabava assim de se libertar do sofrimento, como também nunca choro nos funerais.

Morrer é a lei da vida. Tenho fé e acredito que a seguir a esta há outra, onde não há dor nem sofrimento. Espero que assim seja!

«Quem não morre de novo, de velho não escapa».


Provérbios I

Novembro 29, 2007

Hoje vou tentar recordar a cultura da gente das nossas aldeias nos anos 30, 40; tempo da minha infância e juventude.

Eram quase todos analfabetos, por isso todo o seu saber era expresso em pequenas frases, os provérbios.

Relativamente aos trabalhos agrícolas assim diziam: «Semeia em pó de mim não tenhas dó»; «Pelo São Martinho semeia o teu cebolinho»; «Pelo Natal semeia o teu alhal, mas é bom que tenha bico de pardal».

E para incitar ao trabalho: «Semeia e verás, trabalha e terás»; «Quem suou na luta descansa na abundância»; «Nesta vida só manduca quem tabuca e quem não tabuca não manduca»; «Faz com os dentes para comer com as gengivas».

Continua …


Como é bom poder pensar!*

Novembro 28, 2007

Este mar e este silêncio embriagam-me completamente.

Fazem renascer em mim todas as recordações, pessoas amigas muito queridas, momentos bons e até os maus que servem para dar mais valor aos bons.

Há uma magia neste mar, neste pôr do sol … e neste silêncio.

Ser feliz é aceitar a vida como ela é, saber dar valor às coisas banais e valorizá-las, para as dignificar.

Obrigada!

* Escrito numa praia do nosso belo rectângulo à beira mar plantado

Os cofres nas paredes e nos soalhos

Novembro 27, 2007

Naquele tempo as pessoas não guardavam as suas poupanças no banco.

Quando sabiam da aproximação de algum conflito abriam um buraco na parede e metiam os seus valores, ouro e moedas, numa panela de barro ou de ferro. Fechavam o buraco marcando-o com um sinal para mais tarde virem buscá-lo.

Como muitos morriam, os cofres lá ficavam.

Foi assim que eu cheguei a presenciar buracos em paredes de casas velhas, com o formato de panelas.

Dizia-me a minha mãe que as pessoas sonhavam onde estava o tesouro ou passavam e viam o sinal e na calada da noite vinham abrir o buraco e tirar o tesouro.

Na parede de casa da minha tia Florência havia um desses buracos.

Também me contavam que num determinado sítio do caminho que passava perto da capela da Sr.ª das Virtudes, quando os cavaleiros passavam lá de noite nas suas mulas, sentiam tilintar debaixo das ferraduras. Diziam que era o som dum tesouro ali escondido.

Diziam também que detrás da capela estavam escondidas duas talhas, uma com ouro e uma com veneno. Como não estavam assinaladas ninguém as podia ir buscar, porque se se enganasse e abrisse a talha do veneno morria.


As invasões francesas

Novembro 26, 2007

O meu avô contou-me que durante as invasões francesas (ele não disse qual, mas talvez a última comandada por Massena), os soldados franceses andavam pelas aldeias à procura de vítimas. Matavam e violavam as mulheres. Entravam nas casas, abriam as arcas onde as pessoas guardavam os cereais de que faziam o pão e punham os cavalos a comer; abriam as adegas e tiravam as rolhas aos pipos e deixavam o vinho correr para o chão.

As pessoas fugiam para os montes.

De noite os franceses gritavam imitando os portugueses: «Ó Maria! Vem-te embora que o inimigo já cá não está!»

Na minha aldeia havia uma mulher que diziam ser filha dos franceses …


Fiz hoje 85 anos

Novembro 25, 2007

Estou rodeada dos meus sobrinhos e irmã.

Sinto-me feliz e recompensada de todos os sacrifícios que fiz na vida.

Valeu a pena.

E vale a pena viver enquanto se é feliz.

Obrigada!


Os casamentos

Novembro 24, 2007

Na minha juventude os casamentos era muito diferentes do que são hoje.

A noiva não ia de branco.

Os convidados do noivo iam para casa dele e os convidados da noiva iam para casa dela.

Os convidados levavam as bestas bem arreadas com albardas e mantas de luxo.

Para os noivos havia a melhor alimária.

O noivo, com os seus convidados, ia buscar a noiva a casa dela. Aí havia uma cerimónia para conseguir que o pai lha deixasse levar.
Por fim ia o séquito; noivos à frente montados nas suas mulas, tocador a seguir e por fim os convidados.

Os noivos entravam juntos na igreja.

Após o casamento havia festa no arraial, os padrinhos distribuiam bolos de casamento e atiravam amêndoas e confeitos ao ar para quem apanhasse. Os garotos corriam, espanhavam-se no chão, comiam e enchiam os bolsos.

No regresso separavam-se os noivos e cada um ia para a casa dos seus pais, acompanhado dos respectivos convidados, para a boda.

Entre outras coisa, comia-se o “verde” (prato de fígado de carneiro e sopas de pão) e também a caldeirada de carneiro, que era uma delícia.

Acabado o jantar lá ia o noivo buscar a noiva para casa dos dois, mas era uma luta para ele a conseguir trazer.

Faziam-lhe partidas e escondiam-na, mas por fim lá iam os noivos para sua casa onde encontravam mais partidas.

Aí o noivo entregava à noiva a chave da casa e dizia: “Aqui te entrego esta chave mulher, para me abrires a porta sempre a qualquer hora que eu vier!”

No dia seguinte a festa continuava, mas aí a noiva já ia para casa dos pais do noivo.


Democracia

Novembro 22, 2007

O 28 de Maio de 1926 pôs termo às lutas constantes e sucessões de presidentes da República. Iniciou-se um período de repressão, de contenção e de sacrifício imposto por Salazar. Este veio dizer que para endireitar o pais precisava de pulso livre e autoridade.

Surgiram as máximas de incentivo ao sacrifício. E assim vivemos…

Cresci e formei-me nesse regime.O povo não tinha voz. Era tudo pela Nação e nada contra a Nação.

Ora, nós não queremos regressar ao passado. Todos temos de participar, saber como vive o país e ter direitos, cumprindo deveres.

Queremos gozar de liberdade de poder dizer o que está mal, mas o que está mal para uns, parece estar bem para outros.

Por isso tem de haver luta parlamentar até se encontrar algum consenso.

É a democracia!


Falemos agora de sexo …

Novembro 22, 2007

Na minha infância e juventude não se falava de sexo. Era pecado.

Mas eu não precisei que me ensinassem porque via as galinhas com os galos, os cães com as cadelas, os gatos com as gatas. Os que mais me impressionavam eram os gatos. Faziam lutas terríveis, mordiam-se, arranhavam-se e gritavam. Pareciam crianças a chorar nas noites frias de Fevereiro. Metia-me medo.

Mas nunca se falava de sexo.

A minha avó contou-me que certo rapaz andava muito triste porque a mulher com quem casou engravidou. Então ele achava que não podia mais ter relações com a mulher enquanto o bebé não nascesse. A sogra percebeu isso e convidou-o para irem à lenha com a burra. Apanharam muita lenha, carregaram a burra e o rapaz a certa altura disse para a sogra: «Não ponha mais lenha em cima da burra que ela não pode». Então a sogra respondeu: «Carrega-se a burra até cair e trabalha-se a mulher até parir».

O rapaz percebeu e ficou feliz.

 E era assim … 

 Nunca se falava de sexo.


Os caminhos

Novembro 21, 2007

Naquele tempo não havia estradas. Eram carreiros estreitinhos com altos e baixos. As estradas que havia tinham a largura dum carro de bois, com sulcos profundos e enlameados no Inverno.

Às vezes os carros ficavam atolados na lama, lá vinha o dono chamar os vizinhos com os seus animais ajudar a puxar a carrada.

Naquele tempo as mulheres andavam descalças. Aos domingos iam à missa, levavam os sapatos numa saca e calçavam-nos à porta da igreja.

Quando saíam descalçavam-nos.


O Director

Novembro 20, 2007

Quando fiz o meu relatório no Magistério o Director disse-me: “Tenha cuidado com o que escreve!”. Só mais tarde é que percebi que ele não queria que eu escrevesse que foi graças a Salazar que cheguei a professora, mas queria fazer-me ver que só por causa dele é que apenas aos 44 anos consegui ser professora. Se tivesse sido apoiada aos 10 anos tinha-o sido aos 19 anos, quando me tornei regente. Para para mim já foi um grande triunfo.


Uma vida de professora

Novembro 19, 2007

Fui professora durante 43 anos. Dediquei a minha vida à educação. Trabalhei de sol a sol, porque queria fazer de cada criança uma pessoa que respeitasse os outros, respeitando-se a si própria. Várias vezes castiguei os meus alunos, mas amava-os como se fossem meus filhos. Sempre me respeitaram e acredito que me amavam. Hoje, com 84 anos, vou por vezes na rua e aparece um homem ou uma senhora que me cumprimenta dizendo: «Olha a minha professora!». Alunos de há mais de 50 anos querem ver-me e falar-me. Fico feliz e recompensada.


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