A minha mãe não tinha possibilidades. Na aldeia ninguém estudava, não havia transportes nem estudos gratuitos. Só pagando.
O estudo era para os ricos, os filhos dos doutores, que muitas vezes eram umas nulidades, mas chegavam a doutores, porque os pais também o eram. Os pobres e os camponeses tinham de continuar no campo.
Quando eu dizia que queria queria estudar as pessoas riam-se de mim.
Por isso, hoje quando vejo esta juventude vinda das aldeias, com as mesmas regalias, os mesmo direitos dos jovens da cidade, sinto-me muito feliz e dou graças a Deus. Só é pena que muitos não aproveitem esse privilégio. Sim, porque isto é um privilégio, é uma conquista da democracia, da evolução dos tempos.
Não podendo entrar em nenhuma escola, nem colégio, uma senhora amiga da minha mãe arranjou forma de eu aprender costura com umas senhoras que passaram a ser a minha segunda família.
Aprendi costura e isso foi muito bom. Ainda hoje faço as minhas roupas quando me apetece. Mas não era a costura que eu queria; eu queria estudar, ser professora.
Estávamos no regime de Salazar. As mulheres não precisavam de saber ler, e as que sabiam não faziam mais do que a 3ª classe, tal como os homens. Assim passou a haver um exame na 3ª classe. Fecharam-se as Escolas Normais onde se formavam as professoras, mas para dar uma satisfação ao País e suprir a falta de professores criaram-se as regentes escolares. Não precisavam de lhes pagar o curso, ganhavam menos do que as professoras e faziam as vezes destas.
Estava eu na 4ª classe e um dia minha professora disse-me assim: “Olha, se não puderes estudar, quando tiveres 18 anos fazes um exame e vais para professora regente”.
Eu fiquei sempre a pensar nisso. E entre a saída da escola e os 18 anos passou-se muito tempo em que eu fiz de tudo, apanhei azeitona, sachei milho e nunca me esquivei a qualquer trabalho. Tudo o que fazia, fazia-o com garra, com alegria, com vontade e nunca ficava atrás. Mas as pessoas para quem eu trabalhava todas me diziam: “Tu tens jeito é para senhora. Porque não vais para professora?”. E foi assim que um dia pedi dez tostões à minha tia para comprar sabão, afim de me poder encontrar com a professora da terra e lhe pedir para me habilitar para regente.
Ela aceitou com toda a simpatia e carinho. Passei a ir à escola dela e numa pequena sala ao lado ensinava a classe que ela me dava. Ou seja, vinham os meninos da 1ª classe, depois da 2ª e assim todas as classes acabaram por me passar pelas mãos. Em vez de me ensinar, era uma espécie de estágio supervisionado por ela.
Ela era uma grande senhora e uma grande amiga. Eu fazia-lhe os bibes para os filhos e ela muitas vezes dava-me o almoço. Saiu lá da terra nesse ano, mas disse-me: “Não lhe posso garantir nada, mas vá fazer o exame, está preparada.”
E assim foi. Fiz o exame e fiquei aprovada com 12 valores, sem favor, o que não era vulgar nesse tempo.
Isto foi em Outubro de 1941.