Os funerais

Novembro 30, 2007

Os funerais são por norma lugares de recolhimento, mas os funerais da aldeia têm um sentido diferente. As pessoas acorrem a assistir à despedida daquele ou daquela,  pai ou familiar dos seus amigos.

Alguns vêm de longe por esse motivo, não podem faltar, é um dever.

Então dá-se praticamente um momento de reencontros. Relembrar factos passados, ver pessoas que não se via há anos e que noutro lugar não era possível encontrar, há abraços, beijos de carinho, e o que devia ser um motivo de tristeza é muitas vezes de alegria.

Fui a um funeral à minha terra, foi assim para mim, vi pessoas que não via há anos. Não chorei, não só porque sabia que a pessoa a enterrar tinha sofrido muito em vida, e acabava assim de se libertar do sofrimento, como também nunca choro nos funerais.

Morrer é a lei da vida. Tenho fé e acredito que a seguir a esta há outra, onde não há dor nem sofrimento. Espero que assim seja!

«Quem não morre de novo, de velho não escapa».


Provérbios I

Novembro 29, 2007

Hoje vou tentar recordar a cultura da gente das nossas aldeias nos anos 30, 40; tempo da minha infância e juventude.

Eram quase todos analfabetos, por isso todo o seu saber era expresso em pequenas frases, os provérbios.

Relativamente aos trabalhos agrícolas assim diziam: «Semeia em pó de mim não tenhas dó»; «Pelo São Martinho semeia o teu cebolinho»; «Pelo Natal semeia o teu alhal, mas é bom que tenha bico de pardal».

E para incitar ao trabalho: «Semeia e verás, trabalha e terás»; «Quem suou na luta descansa na abundância»; «Nesta vida só manduca quem tabuca e quem não tabuca não manduca»; «Faz com os dentes para comer com as gengivas».

Continua …


Como é bom poder pensar!*

Novembro 28, 2007

Este mar e este silêncio embriagam-me completamente.

Fazem renascer em mim todas as recordações, pessoas amigas muito queridas, momentos bons e até os maus que servem para dar mais valor aos bons.

Há uma magia neste mar, neste pôr do sol … e neste silêncio.

Ser feliz é aceitar a vida como ela é, saber dar valor às coisas banais e valorizá-las, para as dignificar.

Obrigada!

* Escrito numa praia do nosso belo rectângulo à beira mar plantado

Os cofres nas paredes e nos soalhos

Novembro 27, 2007

Naquele tempo as pessoas não guardavam as suas poupanças no banco.

Quando sabiam da aproximação de algum conflito abriam um buraco na parede e metiam os seus valores, ouro e moedas, numa panela de barro ou de ferro. Fechavam o buraco marcando-o com um sinal para mais tarde virem buscá-lo.

Como muitos morriam, os cofres lá ficavam.

Foi assim que eu cheguei a presenciar buracos em paredes de casas velhas, com o formato de panelas.

Dizia-me a minha mãe que as pessoas sonhavam onde estava o tesouro ou passavam e viam o sinal e na calada da noite vinham abrir o buraco e tirar o tesouro.

Na parede de casa da minha tia Florência havia um desses buracos.

Também me contavam que num determinado sítio do caminho que passava perto da capela da Sr.ª das Virtudes, quando os cavaleiros passavam lá de noite nas suas mulas, sentiam tilintar debaixo das ferraduras. Diziam que era o som dum tesouro ali escondido.

Diziam também que detrás da capela estavam escondidas duas talhas, uma com ouro e uma com veneno. Como não estavam assinaladas ninguém as podia ir buscar, porque se se enganasse e abrisse a talha do veneno morria.


As invasões francesas

Novembro 26, 2007

O meu avô contou-me que durante as invasões francesas (ele não disse qual, mas talvez a última comandada por Massena), os soldados franceses andavam pelas aldeias à procura de vítimas. Matavam e violavam as mulheres. Entravam nas casas, abriam as arcas onde as pessoas guardavam os cereais de que faziam o pão e punham os cavalos a comer; abriam as adegas e tiravam as rolhas aos pipos e deixavam o vinho correr para o chão.

As pessoas fugiam para os montes.

De noite os franceses gritavam imitando os portugueses: «Ó Maria! Vem-te embora que o inimigo já cá não está!»

Na minha aldeia havia uma mulher que diziam ser filha dos franceses …


Fiz hoje 85 anos

Novembro 25, 2007

Estou rodeada dos meus sobrinhos e irmã.

Sinto-me feliz e recompensada de todos os sacrifícios que fiz na vida.

Valeu a pena.

E vale a pena viver enquanto se é feliz.

Obrigada!


Os casamentos

Novembro 24, 2007

Na minha juventude os casamentos era muito diferentes do que são hoje.

A noiva não ia de branco.

Os convidados do noivo iam para casa dele e os convidados da noiva iam para casa dela.

Os convidados levavam as bestas bem arreadas com albardas e mantas de luxo.

Para os noivos havia a melhor alimária.

O noivo, com os seus convidados, ia buscar a noiva a casa dela. Aí havia uma cerimónia para conseguir que o pai lha deixasse levar.
Por fim ia o séquito; noivos à frente montados nas suas mulas, tocador a seguir e por fim os convidados.

Os noivos entravam juntos na igreja.

Após o casamento havia festa no arraial, os padrinhos distribuiam bolos de casamento e atiravam amêndoas e confeitos ao ar para quem apanhasse. Os garotos corriam, espanhavam-se no chão, comiam e enchiam os bolsos.

No regresso separavam-se os noivos e cada um ia para a casa dos seus pais, acompanhado dos respectivos convidados, para a boda.

Entre outras coisa, comia-se o “verde” (prato de fígado de carneiro e sopas de pão) e também a caldeirada de carneiro, que era uma delícia.

Acabado o jantar lá ia o noivo buscar a noiva para casa dos dois, mas era uma luta para ele a conseguir trazer.

Faziam-lhe partidas e escondiam-na, mas por fim lá iam os noivos para sua casa onde encontravam mais partidas.

Aí o noivo entregava à noiva a chave da casa e dizia: “Aqui te entrego esta chave mulher, para me abrires a porta sempre a qualquer hora que eu vier!”

No dia seguinte a festa continuava, mas aí a noiva já ia para casa dos pais do noivo.


Democracia

Novembro 22, 2007

O 28 de Maio de 1926 pôs termo às lutas constantes e sucessões de presidentes da República. Iniciou-se um período de repressão, de contenção e de sacrifício imposto por Salazar. Este veio dizer que para endireitar o pais precisava de pulso livre e autoridade.

Surgiram as máximas de incentivo ao sacrifício. E assim vivemos…

Cresci e formei-me nesse regime.O povo não tinha voz. Era tudo pela Nação e nada contra a Nação.

Ora, nós não queremos regressar ao passado. Todos temos de participar, saber como vive o país e ter direitos, cumprindo deveres.

Queremos gozar de liberdade de poder dizer o que está mal, mas o que está mal para uns, parece estar bem para outros.

Por isso tem de haver luta parlamentar até se encontrar algum consenso.

É a democracia!


Falemos agora de sexo …

Novembro 22, 2007

Na minha infância e juventude não se falava de sexo. Era pecado.

Mas eu não precisei que me ensinassem porque via as galinhas com os galos, os cães com as cadelas, os gatos com as gatas. Os que mais me impressionavam eram os gatos. Faziam lutas terríveis, mordiam-se, arranhavam-se e gritavam. Pareciam crianças a chorar nas noites frias de Fevereiro. Metia-me medo.

Mas nunca se falava de sexo.

A minha avó contou-me que certo rapaz andava muito triste porque a mulher com quem casou engravidou. Então ele achava que não podia mais ter relações com a mulher enquanto o bebé não nascesse. A sogra percebeu isso e convidou-o para irem à lenha com a burra. Apanharam muita lenha, carregaram a burra e o rapaz a certa altura disse para a sogra: «Não ponha mais lenha em cima da burra que ela não pode». Então a sogra respondeu: «Carrega-se a burra até cair e trabalha-se a mulher até parir».

O rapaz percebeu e ficou feliz.

 E era assim … 

 Nunca se falava de sexo.


Os caminhos

Novembro 21, 2007

Naquele tempo não havia estradas. Eram carreiros estreitinhos com altos e baixos. As estradas que havia tinham a largura dum carro de bois, com sulcos profundos e enlameados no Inverno.

Às vezes os carros ficavam atolados na lama, lá vinha o dono chamar os vizinhos com os seus animais ajudar a puxar a carrada.

Naquele tempo as mulheres andavam descalças. Aos domingos iam à missa, levavam os sapatos numa saca e calçavam-nos à porta da igreja.

Quando saíam descalçavam-nos.


O Director

Novembro 20, 2007

Quando fiz o meu relatório no Magistério o Director disse-me: “Tenha cuidado com o que escreve!”. Só mais tarde é que percebi que ele não queria que eu escrevesse que foi graças a Salazar que cheguei a professora, mas queria fazer-me ver que só por causa dele é que apenas aos 44 anos consegui ser professora. Se tivesse sido apoiada aos 10 anos tinha-o sido aos 19 anos, quando me tornei regente. Para para mim já foi um grande triunfo.


Uma vida de professora

Novembro 19, 2007

Fui professora durante 43 anos. Dediquei a minha vida à educação. Trabalhei de sol a sol, porque queria fazer de cada criança uma pessoa que respeitasse os outros, respeitando-se a si própria. Várias vezes castiguei os meus alunos, mas amava-os como se fossem meus filhos. Sempre me respeitaram e acredito que me amavam. Hoje, com 84 anos, vou por vezes na rua e aparece um homem ou uma senhora que me cumprimenta dizendo: «Olha a minha professora!». Alunos de há mais de 50 anos querem ver-me e falar-me. Fico feliz e recompensada.


Velhos

Novembro 19, 2007

Não gosto de ouvir chamar velho a ninguém.

Já lá vão quase 85, mas não me considero velha. Sinto-me lúcida, capaz de me bastar a mim e ajudar os outros. Não gosto de ouvir chamar velho a ninguém, porque só quem já ultrapassou os 6o anos é que sente o peso dessa palavra.

Ainda que alguns a digam com um certo carinho, para quem é realmente velho não deixa de ser deprimente ouvi-la.


Sejam bem vindos!

Novembro 18, 2007

Depois de ter aceite o desafio persistente do meu sobrinho para criar o meu próprio “blogue”, que era algo que eu desconhecia até esse momento, parece que o caderninho onde diariamente tenho registado algumas das memórias e dos pensamentos que me ocorrem vai passar a ser, pelo menos parcialmente, partilhado neste espaço.

Nunca pensei fazê-lo, mas como velhos são os trapos, vou usar as novas tecnologias para expor, sem qualquer compromisso, os pensamentos que me vão ocorrendo.

Obrigada!