Vou falar do meu pai

Pouco me lembro do meu pai. Morreu com 36 anos quando eu tinha apenas 5 anos.

Lembro-me da história das favas, mas não tenho uma foto dele, porque na aldeia não havia fotógrafos.

Recordo-me de o ver na cama pouco tempo antes de morrer, de o ver descer a escada do alçapão, mesmo doente para pôr os bois no carro. Não foi ao médico, veio uma curandeira para lhe dar um clister, o que ainda lhe fez pior. A morte dele foi causada por ter uma hérnia umbilical. Usava uma funda para segurar o intestino, mas um dia foi lavrar uma terra com os bois novos,  não levou a funda e o intestino saiu. O atraso de toda aquela gente não os deixou chamar um médico ou conduzi-lo ao hospital e assim morreu passados 5 dias.

Era um homem que prometia ser rico, era negociante de peles e lã. Andava pelo Ribatejo e Alentejo. Quando regressava trazia dinheiro que aplicava comprando todas as terras que estivessem à venda. Quando casou fez a maior casa da aldeia, com rés-do-chão e 1º andar, cómodos para animais, adega, etc.

Deixou viúva a minha mãe, que era da idade dele, uma mulher bonita, com cinco filhas, a mais velha com 10 anos, a mais nova com 2.

A minha mãe ficou cheia de dívidas, porque o meu pai não contava morrer e tinha acabado de comprar uma grande quinta que ainda não tinha pago.

A minha mãe era analfabeta, mas felizmente em contas ninguém a enganava.

Uma Resposta para “Vou falar do meu pai”

  1. Terpsichore E.M.Psyche Diz:

    Lamento pelo seu pai. Uma vida de grandes dificuldades, teve a sua mãe. Obrigada dona Júlia. Cumprimentos.

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