Hoje quero falar de como se tratavam as doenças na minha infância. Se me doia a barriga, a minha mãe deitava-me no chão em cima de uma manta e esticava-me os pés até ficarem bem unidinhos e com as duas mãos esfregava-me a barriga com azeite da candeia (nesse tempo as pessoas alumiavam-se com candeias de azeite), depois fazia uma faixa com um lenço da cabeça e apertava-me a barriga. Tinha de andar com aquilo 3 dias. Não gostava nada.
Se me doia a cabeça diziam logo que era quebranto. Alguém me tinha embruxado. Então, a minha tia mandava-me sentar à lareira com as pernas cruzadas, dava-me uma mão cheia de sal para eu segurar e andar com ela à volta da cabeça enquanto dizia:
“Quebranto, para que me vieste e não me disseste que eu te curaria? Com três peidos meus, três da Maria Mateus, três do Bio-bio e três da puta que o pariu.”
Em seguida punha o sal em cima das brasas. Se ficasse negro o quebranto tinha passado. Acho que ficava sempre negro.
Quando as pessoas andavam fracas, mesmo os meninos, davam-lhes sopas de cavalo cansado. Eram feitas com vinho quente e açucar amarelo. Numa malga grande faziam as sopas de pão ou broa e por cima punham o açucar bastante e depois cobriam com vinho quente.
Muitos meninos comiam sopas de cavalo cansado antes de irem para a escola. Eu não me recordo se também comi disso antes de ir para a escola, mas sei que comi algumas vezes.
Publicado por Júlia