Lembrei-me agora de uma anedota do tempo do volfrâmio

Dezembro 23, 2007

O volfrâmio é um mineral que se explorou muito no tempo da 2ª Guerra Mundial. Havia muito nas regiões interiores de Portugal e essa exploração fez muitos novos-ricos. Alguns nem sabiam contar o dinheiro, nem o que fazer com ele. Então um foi comprar um bilhete para ir a Lisboa de comboio, mas em vez de embarcar ficou-se na Estação.

– Então Manel, não embarcaste?

– Não, enganei o comboio. Comprei o bilhete, mas não fui.

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Vou falar do meu pai

Dezembro 13, 2007

Pouco me lembro do meu pai. Morreu com 36 anos quando eu tinha apenas 5 anos.

Lembro-me da história das favas, mas não tenho uma foto dele, porque na aldeia não havia fotógrafos.

Recordo-me de o ver na cama pouco tempo antes de morrer, de o ver descer a escada do alçapão, mesmo doente para pôr os bois no carro. Não foi ao médico, veio uma curandeira para lhe dar um clister, o que ainda lhe fez pior. A morte dele foi causada por ter uma hérnia umbilical. Usava uma funda para segurar o intestino, mas um dia foi lavrar uma terra com os bois novos,  não levou a funda e o intestino saiu. O atraso de toda aquela gente não os deixou chamar um médico ou conduzi-lo ao hospital e assim morreu passados 5 dias.

Era um homem que prometia ser rico, era negociante de peles e lã. Andava pelo Ribatejo e Alentejo. Quando regressava trazia dinheiro que aplicava comprando todas as terras que estivessem à venda. Quando casou fez a maior casa da aldeia, com rés-do-chão e 1º andar, cómodos para animais, adega, etc.

Deixou viúva a minha mãe, que era da idade dele, uma mulher bonita, com cinco filhas, a mais velha com 10 anos, a mais nova com 2.

A minha mãe ficou cheia de dívidas, porque o meu pai não contava morrer e tinha acabado de comprar uma grande quinta que ainda não tinha pago.

A minha mãe era analfabeta, mas felizmente em contas ninguém a enganava.


A minha infância (cont.)

Dezembro 10, 2007

A minha mãe não tinha possibilidades. Na aldeia ninguém estudava, não havia transportes nem estudos gratuitos. Só pagando.

O estudo era para os ricos, os filhos dos doutores, que muitas vezes eram umas nulidades, mas chegavam a doutores, porque os pais também o eram. Os pobres e os camponeses tinham de continuar no campo.

Quando eu dizia que queria queria estudar as pessoas riam-se de mim.

Por isso, hoje quando vejo esta juventude vinda das aldeias, com as mesmas regalias, os mesmo direitos dos jovens da cidade, sinto-me muito feliz e dou graças a Deus. Só é pena que muitos não aproveitem esse privilégio. Sim, porque isto é um privilégio, é uma conquista da democracia, da evolução dos tempos.

Não podendo entrar em nenhuma escola, nem colégio, uma senhora amiga da minha mãe arranjou forma de eu aprender costura com umas senhoras que passaram a ser a minha segunda família.

Aprendi costura e isso foi muito bom. Ainda hoje faço as minhas roupas quando me apetece. Mas não era a costura que eu queria; eu queria estudar, ser professora.

Estávamos no regime de Salazar. As mulheres não precisavam de saber ler, e as que sabiam não faziam mais do que a 3ª classe, tal como os homens. Assim passou a haver um exame na 3ª classe. Fecharam-se as Escolas Normais onde se formavam as professoras, mas para dar uma satisfação ao País e suprir a falta de professores criaram-se as regentes escolares. Não precisavam de lhes pagar o curso, ganhavam menos do que as professoras e faziam as vezes destas.

Estava eu na 4ª classe e um dia minha professora disse-me assim: “Olha, se não puderes estudar, quando tiveres 18 anos fazes um exame e vais para professora regente”.

Eu fiquei sempre a pensar nisso. E entre a saída da escola e os 18 anos passou-se muito tempo em que eu fiz de tudo, apanhei azeitona, sachei milho e nunca me esquivei a qualquer trabalho. Tudo o que fazia, fazia-o com garra, com alegria, com vontade e nunca ficava atrás. Mas as pessoas para quem eu trabalhava todas me diziam: “Tu tens jeito é para senhora. Porque não vais para professora?”. E foi assim que um dia pedi dez tostões à minha tia para comprar sabão, afim de me poder encontrar com a professora da terra e lhe pedir para me habilitar para regente.

Ela aceitou com toda a simpatia e carinho. Passei a ir à escola dela e numa pequena sala ao lado ensinava a classe que ela me dava. Ou seja, vinham os meninos da 1ª classe, depois da 2ª e assim todas as classes acabaram por me passar pelas mãos. Em vez de me ensinar, era uma espécie de estágio supervisionado por ela.

Ela era uma grande senhora e uma grande amiga. Eu fazia-lhe os bibes para os filhos e ela muitas vezes dava-me o almoço. Saiu lá da terra nesse ano, mas disse-me: “Não lhe posso garantir nada, mas vá fazer o exame, está preparada.”

E assim foi. Fiz o exame e fiquei aprovada com 12 valores, sem favor, o que não era vulgar nesse tempo.

Isto foi em Outubro de 1941.


A minha infância

Dezembro 8, 2007

Fiquei sem pai aos cinco anos. Fui para a escola levada por um vizinho. Na escola tive sempre sucesso graças ao meu sentido de responsabilidade.  Conquistei a simpatia da professora que sempre me apoio e conseguiu que a minha mãe me deixasse fazer a 4ª classe, coisa que as meninas do meu tempo não faziam. Mas para ir à escola tinha de cumprir muitas obrigações, não só apanhar favas e ervilhas, mas também ir à água, ajudar no campo. Mesmo assim era a primeira a chegar à escola, tirava os significados para os outros e abria a porta da escola.

Para assistir às provas orais da 4ª classe andei 10 Km a pé. Completei o meu exame com distinção. Julgava-me a pessoa mais importante, sabia história, geografia, matemática, etc.

Tinha muita vontade de continuar, mas como?


Chocolates

Dezembro 8, 2007

Hoje vou contar-vos como eram os “chocolates” da minha infância na minha aldeia.

Tinha cerca de 4 anos, aí por 1926, o meu pai regressou a casa depois de ir ver um faval. Sentou-me num joelho e uma outra irmã mais nova noutro e puxou do bolso do casaco uma mão cheia de favas tenrinhas e deu-nos para que comêssemos assim cruas depois de descascadas. Nós achávamos muito boas.

Outras vezes eram ervilhas, que eu gostava mais.

Quando mais tarde já andava na escola tinha como obrigação apanhar favas e ervilhas para a ceia. Entrava no ervilhal e era uma para o saco e outra para o papo; era a merenda. As ervilhas e as favas tenrinhas eram muito boas.

Eu não gostava de favas cozidas, mas gostava cruas. Eram os meus chocolates!


Hoje vou falar de enjeitados

Dezembro 5, 2007

Sempre houve crianças abandonadas pelo País. Eram os chamados enjeitados.

No tempo do Marquês de Pombal, reinado de D. Maria I (século XVIII), Pina Manique criou a Casa Pia, destinada a essas crianças. Assim, quem não queria ou não podia criar os filhos levava-os para a “Roda”.

A “Roda” era um departamento dessa casa, onde as mães iam depositar os filhos, com ou sem identificação.

Então o Estado publicou uma lei que permitia que qualquer mãe que tivesse filhos a amamentar pudesse ir buscar uma dessas crianças para aleitar e criar, recebendo para isso uma pensão.

Ora, na minha aldeia conheci muitas dessas pessoas, homens e mulheres que tendo vindo da “Roda”, casaram, formaram família e eram pessoas de bem. As pessoas que os iam buscar criavam-nos e introduziam-nos na família com os mesmos direitos dos seus filhos biológicos.

A minha mãe contou-me que a minha avó, apesar de ter mais cinco filhos, foi buscar uma menina a Lisboa (sim, porque era lá que as iam buscar) que criou com todo o carinho, mas quando ela já tinha 7 anos os pais biológicos vieram buscá-la.

Os meus avós ficaram muito tristes.

Mais tarde souberam que a menina tinha morrido de saudades.

Lembrei-me disto por causa do caso da “Esmeralda”…