Saúde

Janeiro 17, 2008

Cada dia ouvimos dizer que se fechou mais um Hospital ou Centro de Saúde. As pessoas ficam aflitas e muitas vezes com razão. Mas na minha infância, nas aldeias não havia médico, nem acesso a eles. Havia um senhor, a quem chamavam “Barbeiro” (mas não era de fazer a barba) que vinha às casas mediante o pagamento de uma avença. Ou seja, as pessoas, doentes ou não, comprometiam-se a pagar um alqueire de milho por ano e quando precisavam chamavam-no. Ele receitava papas de linhaça se doia a barriga, sanapismos de mostarda se doia a garganta ou as costas, chás de malvas, hortelã, cidreira, cabeça de marcela, borragem, etc.

Eram tempos muito diferentes, mas ninguém morria à fome. Se uma pessoa ficasse doente de cama logo lhe punham à cabeceira um pacote de açúcar e um pão de trigo.

Hoje, quando uma pessoa tem febre mandam tirar a roupa. Nada de abafar! Mas nesse tempo abafavam a pessoa com roupa, pois tinha de transpirar para passar a febre.

Quando olho para trás dou graças a Deus. Como tudo evoluiu!…

Hoje as crianças são vacinadas contra tudo e mais alguma coisa. Eu fui vacinada contra a varíola, porque estava na escola, mas as minhas irmãs, que não foram à escola, todas tiveram bexigas. Dava pena vê-las inchadas com bolhas de pus. Ficaram com buraquinhos no rosto.

A minha mãe teve 10 filhos e os primeiros três morreram. A menina à nascença e os dois meninos, com 5 e 7 anos, ninguém soube porquê.

O meu pai morreu aos 36 anos com uma hérnia estrangulada. Se fosse hoje não teria morrido tão novo.

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Hoje vou falar de enjeitados

Dezembro 5, 2007

Sempre houve crianças abandonadas pelo País. Eram os chamados enjeitados.

No tempo do Marquês de Pombal, reinado de D. Maria I (século XVIII), Pina Manique criou a Casa Pia, destinada a essas crianças. Assim, quem não queria ou não podia criar os filhos levava-os para a “Roda”.

A “Roda” era um departamento dessa casa, onde as mães iam depositar os filhos, com ou sem identificação.

Então o Estado publicou uma lei que permitia que qualquer mãe que tivesse filhos a amamentar pudesse ir buscar uma dessas crianças para aleitar e criar, recebendo para isso uma pensão.

Ora, na minha aldeia conheci muitas dessas pessoas, homens e mulheres que tendo vindo da “Roda”, casaram, formaram família e eram pessoas de bem. As pessoas que os iam buscar criavam-nos e introduziam-nos na família com os mesmos direitos dos seus filhos biológicos.

A minha mãe contou-me que a minha avó, apesar de ter mais cinco filhos, foi buscar uma menina a Lisboa (sim, porque era lá que as iam buscar) que criou com todo o carinho, mas quando ela já tinha 7 anos os pais biológicos vieram buscá-la.

Os meus avós ficaram muito tristes.

Mais tarde souberam que a menina tinha morrido de saudades.

Lembrei-me disto por causa do caso da “Esmeralda”…


Os funerais

Novembro 30, 2007

Os funerais são por norma lugares de recolhimento, mas os funerais da aldeia têm um sentido diferente. As pessoas acorrem a assistir à despedida daquele ou daquela,  pai ou familiar dos seus amigos.

Alguns vêm de longe por esse motivo, não podem faltar, é um dever.

Então dá-se praticamente um momento de reencontros. Relembrar factos passados, ver pessoas que não se via há anos e que noutro lugar não era possível encontrar, há abraços, beijos de carinho, e o que devia ser um motivo de tristeza é muitas vezes de alegria.

Fui a um funeral à minha terra, foi assim para mim, vi pessoas que não via há anos. Não chorei, não só porque sabia que a pessoa a enterrar tinha sofrido muito em vida, e acabava assim de se libertar do sofrimento, como também nunca choro nos funerais.

Morrer é a lei da vida. Tenho fé e acredito que a seguir a esta há outra, onde não há dor nem sofrimento. Espero que assim seja!

«Quem não morre de novo, de velho não escapa».


Como é bom poder pensar!*

Novembro 28, 2007

Este mar e este silêncio embriagam-me completamente.

Fazem renascer em mim todas as recordações, pessoas amigas muito queridas, momentos bons e até os maus que servem para dar mais valor aos bons.

Há uma magia neste mar, neste pôr do sol … e neste silêncio.

Ser feliz é aceitar a vida como ela é, saber dar valor às coisas banais e valorizá-las, para as dignificar.

Obrigada!

* Escrito numa praia do nosso belo rectângulo à beira mar plantado

Democracia

Novembro 22, 2007

O 28 de Maio de 1926 pôs termo às lutas constantes e sucessões de presidentes da República. Iniciou-se um período de repressão, de contenção e de sacrifício imposto por Salazar. Este veio dizer que para endireitar o pais precisava de pulso livre e autoridade.

Surgiram as máximas de incentivo ao sacrifício. E assim vivemos…

Cresci e formei-me nesse regime.O povo não tinha voz. Era tudo pela Nação e nada contra a Nação.

Ora, nós não queremos regressar ao passado. Todos temos de participar, saber como vive o país e ter direitos, cumprindo deveres.

Queremos gozar de liberdade de poder dizer o que está mal, mas o que está mal para uns, parece estar bem para outros.

Por isso tem de haver luta parlamentar até se encontrar algum consenso.

É a democracia!


Velhos

Novembro 19, 2007

Não gosto de ouvir chamar velho a ninguém.

Já lá vão quase 85, mas não me considero velha. Sinto-me lúcida, capaz de me bastar a mim e ajudar os outros. Não gosto de ouvir chamar velho a ninguém, porque só quem já ultrapassou os 6o anos é que sente o peso dessa palavra.

Ainda que alguns a digam com um certo carinho, para quem é realmente velho não deixa de ser deprimente ouvi-la.